terça-feira, setembro 29, 2009

Pastelão, si vous plâit ?

 Van Gogh 
por Cláudia Rocha


Minha janela pendura
paisagem, rasura
Maquiagem, ranhura
Aterrisagem segura?
Minha mente procura
Uma viagem só de ida pra Lua

Minha tão doce estrutura
Infectada de humanidade
Eu sou de Vênus
Metade da sua verdade
Meu ser de Marte

Minha porta se fecha
palavra, gemido
sususrro contido
Um pouco de cor nessa festa
Mas minha cabeça imatura
Quer mais asas na bagagem

O que essa gente procura?
Uma porta ou janela
Ou procura quem sabe
Uma tela de paisagem
Um sorriso de olhos
Um alguém pra sua arte.








domingo, setembro 27, 2009

Hangover

Hangover

Resto de palavra engasgada
Amanhecendo na boca com gosto de mágoa
Lembrando o semi-acordado da risada
Ambientada em batimento alheio
Ela se senta nas veias
Finge que não acorda
Dá corda na alma de carne
Dança nos pés da insanidade
Pega o travesseiro da lágrima
Engole, cospe, chora
Amanhece novamente de repente
Com a memória em ressaca
E ri enorme - e dor
E dorme despudorada.

por Cláudia Rocha (outubro 2008)


HANGOVER, GAME OVER, WHATEVER....

quarta-feira, setembro 23, 2009

Homo Faber

Esse negócio de Liberdade


Pareceu curioso esse negócio de liberdade que me desacorrentou as pernas do chão e os braços do abraço sinuoso da cama. Esse povoar descuidado das roupas nas linhas territoriais do meu corpo despatriado. Eu daria mais pernas para este mundo girar se pudesse. Mas talvez eu não dê sequer uma única palavra para o futuro deste instante. Talvez eu dê para ele apenas um longo suspiro de paz - com se a paz fosse toda minha e eu não devesse nada - absolutamente nada, como assim não devo - a ninguém... nem a Deus por ter feito cada intervalo entre os poros, nem a meus criadores por ter feito cada vida entre as membranas desgastadas na fibra humana latente que me configura a existência. Tá ai uma palavra que faltava no Aurélio da minha cabeça: eu sou livre pro que bem entender!
Livre para acordar de manhã e abrir minhas linhas na torneira, livre para cada olhar primeiro sobre as coisas. Livre para me dar aos pouquinhos à todas coisas soturnas. Livre pela madrugada gostosa das cobertas, ou pela claridade da janela não adormecida. Livre para olhar o Sol ainda que ele fique guardado em seu novelo - amortecido de nuvens. Sou livre para o amor ainda que ele não me pertença. Livre para essa poiesis estúpida confundida com vaidade. Livre para abocanhar o mundo inteiro com as pernas e mãos e palvras ébrias - ou sobrias delas mesmas. Livre para te dizer o que queira, só pq sou livre e sei imitar o infinito tão etereamente
Hoje faz uma manhã bonita, diferente do mau-humor nublado de ontem. Hoje estou cansada de ser acorrentada à idéia fixa de ser feliz. E só por ser só livre, só e livre e somente... me sinto cada vez melhor a cada instante. Cada vez mais sufocada de vazios, que pesam quase nada sobre minha carcaça urgente. Mas esse meu nada é alegre e motivado de dez cabeças, só me faz pensar que posso respirar tranquila. Olhar pro relógio e entender que até os ponteiros não se preocupam com o tempo depressa que lhes invoca a humanidade. Hoje, e livre, e fixa, olhar pro Sol, e me desabar humana, sem precisar dos seus dedos e da sua boca nos meus lábios. Sem precisar de palavras para explicar o o doce brilho fresco da manhã em meus cabelos. Nesses braços longos que possuem os meus olhos - pra essa forma física que tem os meus desejos.

(texto adaptado de Hoje sou livre! feito em setembro de 2009)

quinta-feira, setembro 17, 2009

quarta-feira, setembro 16, 2009

Sobre atrasos...

Atrasos são os silenciosos passageiros que estamos acostumados, nos acotovelando no metrô, nos perdendo em seu ponto cego, nos esbarrando de indiferença sem pedir perdão. O atraso é seu rosto pálido que passa, sem entender o desespero das minhas mãos soltas. Um atraso é um abraço nosso que não tenho, é um beijo que eu quero e até posso mas não te dou,pq não te alcanço coisa pequena e alada (longe)- coisa essa que me tira o sossego....

segunda-feira, setembro 14, 2009

Cena estrangeira

Idioma

Não falo sua língua
Pois ela é longa e trêmula
Quente flâmula
Inundada de delírios nos olhos
Não falo sua letra
Ela me engana, maltrata
Ela me cega
Eu sou surda pra sua lágrima
Tão gritante nos cílios
Você me diz gesto
Eu te respondo silêncio
Logo, então trememos
Avidos
No meio dos dedos
Sóbrios e ébrios
Dedos, esses que não se falam
Cheio de dedos nos olhos!
Lábios que não se calam
Nos corpos que se permutam
Se chamam, se queimam
De água e palavras caladas.

por Cláudia Rocha em setembro de 2009

quinta-feira, setembro 10, 2009

Coadjuvante em cena

ser outro - por cláudia rocha - 9 de abril 2009


HÁ UM DESCONHECIDO EM CADA SORRISO QUE VEJO
UM INDISTINTO SENTIMENTO
NUNCA SEI SE ACREDITO

ESSE ESTRANHO SUJEITO
VEM SE MOVENDO RAREFEITO
QUASE NÃO SEI PRA ONDE VAI
NUNCA QUE SEI SE DE FATO FICO
MIRA AVULSA DE SEU BIFURCADO OLHAR
MAS OLHA COMO É BONITO ACREDITAR
NO QUE PENSAMOS DAS PESSOAS

ESSE SER DE FEIÇÕES VÁRIAS
SEMPRE ME ENCARA SEM DÓ
CADA DIA QUE PASSO A TRISTEZA NA CARA
OU FELICIDADE MAQUIADA DE COR
ELE ME ENXERGA A PALAVRA MUDA
ELE ME DESORIENTA,SUJEITO
ME DEIXA CONFUSO NAS ROUPAS PERDIDO
ME DEIXA MULHER QUANDO QUERO SER SÉRIO
E SEM CURVAS NENHUMA, QUASE ANIMAL
QUASE HOMEM, SUBMISSO E ESCANCARADO
CARNE AO AVAL DE SEU BEL-PRAZER

SER NUMÉRICO AO INFINITO
NUNCA SEI DO QUE É CAPAZ
QUANDO ME DÁ BOM DIA E BOA TARDE
E BOA..., MALDADE DEMAIS
ME ACOMPANHA NO TRAJETO
ME TIRA DO CAMINHO
SER QUE ME MOVE DO DENTRO
DO QUE É SER SOZINHO

ESSE SER QUE SEMPRE VEJO
QUANDO OLHO PRA ALGUÉM
NÃO É OUTRO ALÉM DO MESMO
QUE SEMPRE NOTO QUANDO VEM
PORQUE O RESPIRO
PORQUE O SOU
PORQUE NUNCA SEI COMO O VER?
VAI SABER!
QUE ESTRANHO É ESSE NO ESPELHO
QUE ESTÁ SEMPRE OUTRO E MESMO
PRA QUEM EU NUNCA SEI O QUE DIZER?

domingo, setembro 06, 2009

Ah, como chove lá fora

É...
Eu raramente escrevo textos livres. Textos isentos de uma página à salvo no meu computador ; à sete chaves. Meio líquido, meio sem ser relido. Alguma coisa que é chuva, que vai seguindo um rumo na calçada que eu mal-conheço. Alguma coisa que fale de mim, sem que precise ser à minha cara, e que vc talvez possa se ver no espelho, mesmo que eu dê o detalhe da borda. Preciso ser mais madura. Aceitar que nossas palavras não cabem nos dedos, e são minhas... como poderiam ser suas.
Mas eu não aceito.
E salvo correndo minha idéia trancada
Com meu gosto salgado de mulher cheia de grades
Salvo meu homem de páginas
Dentro das pernas

Esquecendo dos ontens
Eu preciso crescer, coisa pequena em mim
Eu preciso suportar temporais.

Monólogo do silêncio


Título: Shhh...

O silêncio não é só o mais inventivo dos criadores
Ele é infernal, repulsivo e arde nas profundezas da Terra
Berra, nas promiscuidades do olhar perdido

Ele é aquele não fala o porque das coisas
E se aquieta e sorri na sua plenitude pequena
E finge que delira quando entra em cena

O silêncio não precisa de platéia
Percorre as ventosas do ar e lamenta
O sei-que-lá criativo- em cada buraco da teia

O silêncio versa um verso vazio

Uma tela impressionista e cheia de rabiscos
Uma linguagem inexpressiva- irreal, saturada
Ele canta uma música distante e rasgada
No seu propósito de arte vesga e invalidada

O silêncio vai morrer em si

Cada vez que o tempo escorrer
nos olhos vc vai fugir?
Cada vez que a pálpebra tremular o amor
E em quantas você não vai enxergar
O sentimento que o silêncio não sabe dizer?

O silêncio não sabe você, não sabe a mim
Não sabe a si - a que veio
E nesse passeio interior de si
Eu fui e voltei no meu peito
Em um quilômetro de coração

Só porque vc não teve os freios,
Que as palvras expressam, na locomoção
Só porque o som da decisão
Não teve o mesmo propósito permeio
Que o silêncio teve na sua compreensão
De mundo?

Quem mais ficará mudo?
Se a nota grita uma odisséia
Em cada olho, em cada expressão
Permeia?

O silencio não tem fim
O silêncio nunca nasceu
Ele olhou pra mim
Com seus olhos muitos
E me furou os dedos.